Aprender com o Norte, e não copiar

Viernes 04 de Noviembre de 2011

Víctor Viñuales, representante do Carbon Disclosure Project, acredita que os países do Sul devem construir soluções próprias, para não importar a crise do Norte.

 
Víctor Viñuales, representante do Carbon Disclosure Project e da Fundação Ecodes, esteve no Brasil para o Encontro Ibero-Americano sobre Desenvolvimento Sustentável (Eima 8). Nesta entrevista à jornalista Marília Arantes, ele olha para a crise que se alastra pela Europa, em especial para os protestos em seu país, a Espanha, e enxerga um momento de grandes oportunidades para a mudança da mentalidade e das atitudes sociais. Para ele, “a esperança é o motor da mudança”, e “o Sul tem que se ‘desnorterizar’. Sem complexos pode aprender as coisas boas, mas não deve mimeticamente copiar, senão levará os prejuízos”. Viñuales acredita “no processo de ressignificação das coisas, principalmente do compartilhamento no lugar da propriedade”, e que é isto o que precederá a economia verde. 
Ao conversar com Marília, um pouco antes da entrevista, Viñuales lhe contou que é filho de agricultores, da região de Zaragoza. “Você sabe como se cultivam as alcachofras?”, ele me perguntou. “Se plantadas desde a semente, elas costumam florescer por quatro ou cinco anos até morrerem. Contudo, os agricultores, ao notarem que estão ficando cansadas, cortam as plantas secas e as transplantam para outro lugar. Assim, elas renascem”, respondeu, contemplando a benevolência da natureza. 
 
Para Viñuales, a mudança de prisma é fundamental: “Temos de superar a unilateralidade, pois tudo está relacionado. É preciso acreditar que, em momentos de crise, mudamos muito rapidamente. Pensar que podemos fazer, isto é o mais importante”, observou. Confira a entrevista a seguir.
 
Marília Arantes: Encerrou-se no dia 20 de outubro o Eima 8.. Qual é a sua opinião geral sobre o que foi discutido nos quatro dias do evento?
 
Víctor Viñuales: Ultimamente, vimos que o sistema financeiro tem um potencial enorme. Tanto para o bem quanto para o mal, ele afeta a economia real. O que aconteceu foi a constatação mundial da “autonomização” do sistema financeiro em relação ao mundo razoável. Ele está determinando tudo para a economia real. Estamos com o desafio de reformar o sistema, isso em geral. Por outro lado, estamos percebendo que existe uma globalização, que enquanto governança política não dá a real importância aos problemas que existem. Fala-se muito em globalização dos mercados financeiros. Pelas declarações de líderes mundiais de trinta anos atrás, pensávamos que eram eles que mandavam, mas agora eles visam a medidas para acalmar mercados. Por trás dos que parecem mandar, estão os que realmente mandam. Então, tudo isso tem a ver com a economia verde, com o desenvolvimento sustentável e com melhores formas de democracia.
 
MA: Sobre as heranças do colonialismo, tanto de um lado como de outro, Hemisfério Sul e Hemisfério Norte, como você enxerga as perspectivas da crise? Assusta o crescimento econômico dos Brics, por exemplo?
 
VV: Acredito que um dos problemas que tivemos até agora foi que houve muita unilateralidade, pela lógica econômica, que só pensa em crescimento, geração de empregos, PIB. Na lógica ambiental, só se falava de ecologia e, na social, de equidade, do Norte que está presente no Sul e vice-versa. O que descobrimos caminhando é que tudo está relacionado. 
 
Estamos com o desafio de resolver três problemas simultâneos, como no sudoku, em que todos os números têm de se encaixar no conjunto. Para resolver o problema econômico, não vale acabar com o planeta; para o ambiental, não adianta fecharmos todas as fábricas. Isso nos exige olhar para o outro não como competidor, mas como complementar. Essas lógicas antigas estão envenenadas. Existe uma corresponsabilidade, embora existam diferenças. A rua estaria limpa se cada um limpasse sua porta. No fundo é disto que se trata, que cada um faça a sua parte. Sul e Norte têm responsabilidades. 
 
O Norte, no ponto de vista da justiça global, talvez tenha uma responsabilidade maior sobre as mudanças climáticas. Mas isso não quer dizer que o Sul não tenha o que fazer. Outro assunto é os países do Sul precisam avaliar que não estão obrigados a repetir erros dos do Norte. Às vezes, estar atrás, mesmo no campo tecnológico, pode ser a oportunidade para dar saltos. No caso da telefonia, por exemplo, o Brasil pode ver os erros que a Espanha cometeu em relação às redes de alta velocidade. 
 
Apesar do estigma do atraso, o Sul tem o poder de aprender, de corrigir erros do Norte. É negativo que se interiorize o Norte como modelo de desenvolvimento. E, por parte do Norte, deve haver um decrescimento. Acredito seriamente neste novo modelo, em que o desenvolvimento não significa crescimento industrial. 
 
MA: No último dia do Eima 8, um palestrante dizia que para impulsionar a Rio+20 seria necessário incentivar as relações Sul-Sul. Como você vê isso?
 
VV: É verdade. A relação horizontal Sul-Sul é muito benéfica para o Sul. Um município sul-americano pode trocar muito mais com outro do Sul do que com um do Norte. O Sul tem que se “desnorterizar”. Sem complexos, pode aprender as coisas boas, mas não deve mimeticamente copiar, senão levará os prejuízos. 
 
Nas conversas na União Europeia, discute-se o que a Europa tem a dar para o Brasil. Em alguns campos, os países do Norte são mais desenvolvidos, em outros não. Em relação aos resíduos, por exemplo, na Dinamarca aproveita-se 95% das garrafas e quase isso se faz na Nicarágua. Já na Espanha não se reutiliza material, mas se recicla. Então temos que aprender mutuamente, encerrando complexos ou parâmetros fixados pela inferioridade ou superioridade.
 
MA: Uma coisa muito rica nas suas falas é quando você aponta a importância do compartilhamento, tanto no uso das coisas práticas como na troca de experiências. Mas a questão da propriedade é muito arraigada, na cultura ocidental principalmente. O que você pensa sobre a propriedade intelectual?
 
VV: Que a propriedade está arraigada na sociedade é muito verdade. No entanto, é preciso acreditar que em momentos de crise mudamos muito rapidamente. Na Inglaterra, durante a Segunda Guerra Mundial, houve uma enorme colaboração da população de Londres no plantio de alimentos, pois havia problemas de abastecimento. 
 
Contudo, sobre propriedade intelectual é preciso ver uma forma mais abrangente de remuneração, para além das “horas de trabalho”. Músicos e jornalistas têm que ser pagos, senão vem a desvalorização do trabalho. Por trás dos websites dos jornais, tem o trabalho de muita gente. Uma coisa é oferecer livremente o meio de comunicação ou produto. Outra, é o trabalho intelectual de um artista. Um escritor precisa viver, precisa receber por um livro que levou dois anos de trabalho, senão não poderá escrever outro.
 
MA: Nesse caso, que atores ou mecanismos parecem mais próximos de resolver a questão intelectual?
 
VV: Todos. É preciso nos darmos conta de que as coisas custam e estarmos conscientes disso. Veja a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Para termos direitos, temos deveres. Para desfrutar do sistema de saúde pública, por exemplo, você tem de pagar impostos. De onde viriam recursos? Não há como ter água no município se o povo não pagar pelo serviço. Não há como pensar um mundo sem deveres. E isso está por trás de toda questão, inclusive da propriedade intelectual. 
 
MA: Qual seria a melhor forma de mobilização popular para uma mudança de mentalidade? Quais seriam os caminhos de conscientização para trazer a noção de cidadania à tona?
 
VV: O mais radical seria que nós, os cidadãos, soubéssemos que temos um poder enorme. Como pensamos que não temos poder, não o utilizamos. É uma ideia incorreta. O dia em que você pensa que pode fazer algo, você faz. Hoje temos mais poder do que em qualquer momento na história da humanidade, o que é um paradoxo, porque os grandes poderosos também têm muito poder. Mas, se pudéssemos ter a chance de estar nas reuniões desses poderosos, veríamos que eles estão com medo, cheios de incertezas. Pensamos que somos uma minoria, mas só as minorias lutaram por mudanças. Veja as mulheres em relação ao sufrágio. O problema não é que sejamos poucos. Temos de pensar que podemos fazer, isso é o mais importante.
 
Por Marília Arantes
 
Publicado en Instituto Ethos
 
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